ARRITMIA

ARRHYTHIMIA
Performance [approximately 3 hours]. Itaúnas, Conceição da Barra, ES, Brazil, 2011.

Photograph by Chloé Gobira.

Normalmente não sentimos nosso coração bater. A arritmia significa uma alteração do ritmo normal do coração, produzindo freqüências cardíacas rápidas, lentas e/ou irregulares - palpitações. Se para alguns é considerada uma doença, para outros simplesmente é um estado de vida; espécie de transtorno frágil e peculiar. Subitamente o corpo se instala num intervalo, uma breve ausência de si mesmo. Instante ocupado serenamente pelo vazio. Entre inspiração e expiração, apenas a travessia na imensidão vaga e branca de um pedaço do mundo que é silencioso, deserto e seco. Na maioria dos casos, as arritmias são breves e desaparecem espontaneamente. Entretanto, em corações enfermos pode ser fatal - a vida por um fio.


Arritmia se inicia com o deslocamento para um lugar árido, vasto e deserto e pela busca de uma pedra ‘furada’ ou vazada. Nesta pedra amarro uma linha vermelha grossa o bastante para agüentar seu peso sendo arrastada. Caminho, me afastando da pedra e estico a linha. Crio um rastro quase invisível de desenhos na areia; uma cartografia extensa. Ao concluir esta etapa, e estando bem distante da pedra, me sento no chão e começo a enrolar a linha em meu corpo, criando um movimento que faz lembrar um tear – eu danço. Este movimento me exige extremo equilíbrio e alguma força física, pois a pedra começa a se mover em minha direção. À medida que esta atividade avança, e a pedra se aproxima o ar me falta, pois a linha enrolada se torna também uma armadura. No momento em que a pedra roça meu corpo, me levanto e caminho, carrego a pedra pendurada em meu pescoço. Cansada, me deito e por fim retomo o movimento ao inverso, retiro a linha vagarosamente do meu torso e a enrolo na pedra, ela se torna maior e de um vermelho intenso. Em seguida, cavo um buraco e a enterro. Resta-me então, apenas um fio preso entre meu corpo e o chão - e para seguir adiante: escolho 
rompê-lo.

We normally don’t feel our heart beat. Arrhythmia means an alteration of the heart’s normal rhythm. During an arrhythmia, the heart can beat too fast, too slow, or with an irregular rhythm. While for some, it is a disease; for others, it is simply a way of living. Arrhythmia is a fragile and peculiar problem that suddenly causes the body to rest in a pause, a brief absence of one’s self. A pause fulfilled by emptiness. Between inhaling and exhaling, crossing through the vague and white wilderness in a piece of the world that is silent, deserted and dry. In most of the cases, arrhythmias are brief and disappear spontaneously. Although in sick hearts it may be life threatening - life by a thread. 

Arrhythmia initiates with a displacement to an arid place, vast and deserted, in a search for a “perforated” stone. In this stone I tie a thick red thread, strong enough to carry its weight being dragged. I walk by, leaving the stone behind and stretching the thread. I create an almost invisible track on the sand; an extensive cartography. Upon finishing this step, and being quite far away from the stone, I sit down on the floor and I start to wind up my body with the thread, creating a movement that reminds me of a loom - I dance. This move demands accurate balance and some strength, because the stone starts to move into my direction. As thisactivity progresses and the stone comes closer, I almost suffocate, because the wound thread turns into armor. By the moment the stone touches my body I stand up and walk. I carry the stone hanging on my neck. Tired, I lie down and continue the move backwards, slowly taking away the thread from my torso and winding it on the stone. The stone turns bigger into a bright red. Then, I dig a hole and I bury the stone. At last, there will be just a thread connecting me to the ground, tied to my body - and to keep going forward: I decide to break it.

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© 2020 Rubiane Maia