PREPARAÇÃO PARA EXERCÍCIO AÉREO, A MONTANHA

PREPARATION FOR ARERIAL EXERCISES, THE MONTAIN

Performance - Video [HD 16:9 - 15' 02'' and  16' 40'' Stereo - Color ]. Serra do Caparaó, Pico da Bandeira, border between Espírito Santo e Minas Gerais, Brazil, 2016. 

Work made in collaboration with Manuel Vason [IT/UK].

PREPARATION FOR AERIAL EXERCISES is a project in which I investigate through performance and video the relations between the body, mobility and lightness through research inspired by the human desire to fly, be it real or metaphorical. Considering the statement of Friedrich Nietzsche 'You who would learn to fly one day must first learn to stand, walk, run, climb and dance; no one can fly only learning flight’, the initial proposal was to travel to height places in nature and develop site specific actions in each of those environments.

O projeto “Preparação para Exercício Aéreo, a Montanha” foi incialmente fundamentado em dois conceitos da geografia, a topofilia: elo afetivo entre uma pessoa e um lugar; e a biofilia: idéia da intrínseca necessidade humana de contato íntimo com a natureza. Sendo a montanha um símbolo universal de grandeza, ela costuma ser citada em mitos ou histórias de ascese na busca pela ascensão ao céu, superação dos limites do corpo e da mente e transcendência das dores da alma. Na antiguidade, alguns dos mais importantes cultos pagãos foram celebrados em locais elevados, como planaltos, colinas, montes e cordilheiras. Circunstância que para numerosos povos exprimia uma parte essencial do ritual: se colocar nesse centro energético que compreende uma interseção entre a terra e o céu, o mundano e o extraordinário. Quiçá uma possível morada dos Deuses e/ou Espíritos da Natureza. Na cultura indígena, caminhar até o cume, ou seja, o ponto mais elevado de uma montanha, ainda, é uma importante referência de exercício espiritual. Tempo de peregrinação, silêncio, recolhimento, contemplação, jejum e privação de certos prazeres. 

 

À vista disso, dois trajetos foram eleitos: o primeiro rumo ao Pico da Bandeira (2.892 m) em parceria com o artista Manuel Vason (IT/UK). E o segundo, ao Monte Roraima (2.810 m) sozinha – dois dos pontos mais elevados do Brasil, porém, com localização, condições climáticas e formação geográfica completamente diferentes. 

I ETAPA – PICO DA BANDEIRA 

[Hemisfério Sul – 20º26’04” de latitude Sul e 41º47'44" de longitude Oeste]

 

O Pico da Bandeira é o 3˚ ponto mais alto do Brasil, sendo o local de maior altitude da região Sudeste. Está localizado no Parque Nacional do Caparaó, na Serra do Caparaó, fazendo divisa com os estados do Espírito Santo e Minas Gerais. É uma montanha de fácil acesso com trilhas sinalizadas de ambos os lados. Sendo assim, o projeto foi organizado em duas fases: a primeira numa residência artística de 20 dias no Vilarejo de Patrimônio da Penha, próximo a entrada do parque. E a segunda, com a subida ao Pico, realizada em três dias.

 

Durante o período de imersão numa paisagem de Mata Atlântica, Rubiane e Manuel trabalharam com a ideia de criar um intercâmbio físico, afetivo e energético com a montanha. E através de longas caminhadas foram elegendo intuitivamente os locais de contato e investigação. Processo que, aos poucos, propiciou a invenção de uma metodologia de escuta e percepção dos sinais emitidos pela própria natureza ao redor. Ou seja, a montanha se transformou numa espécie de guia para as ações, gestos e movimentos que seriam canalizados por seus corpos. Cachoeiras, pedras, folhas, troncos de árvore, raízes, musgos, dentre outros, se transformaram em elementos-chave para a comunicação e recepção de códigos sutis. Exprimindo ritmos, fluxos, direções, sons, duração, atmosfera, gravidade, volume, formas, impulsos etc. 

 

Já no decorrer da subida e descida do Pico, onde predominam as grandes rochas, a vegetação rasteira, a umidade do ar e as nuvens densas, o conceito de ‘sinal' assumiu uma direção oposta e complementar. Estimulados pelas coreografias dos sinalizadores de pátio aéreo de aeroportos (os sinaleiros ou balizadores), os artistas resolveram trabalhar na configuração de seus corpos como dois centros ativos para a transmissão de novos códigos e informações. Portanto, ao invés de serem apenas os receptores-canalizadores, ambos resolveram criar movimentos que pudessem emitir suas ideias, percepções, emoções e desejos tanto entre si, quanto para a montanha. Uma linguagem corporal, que na sua condução não era focada em obedecer a nenhuma lógica ou convenção, demandando apenas uma breve memorização, a repetição e a sincronização dos gestos. 

 

O resultado foi apresentado em dois vídeos produzidos numa primeira edição experimental.

II ETAPA – MONTE RORAIMA, RO 

[Hemisfério Norte – 5°8′28″ de latitude Norte e 60°45′49″ de longitude Oeste]

 

O Monte Roraima é a maior montanha plana do mundo e está localizado na América do Sul, na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana. Seu ponto culminante eleva-se no extremo sul, no estado venezuelano de Bolívar, a 2810 metros de altitude. Apesar de estar localizado numa região remota, o acesso se dá pelo lado sul, na Venezuela, através de uma passagem natural à beira de um despenhadeiro. A sua formação rochosa é uma das mais antigas da Terra, e contém significativos depósitos de quartzo branco e rosado. Em seu topo encontram-se espécies de fauna e flora existentes apenas nessa localidade. 

 

Nesta etapa, Rubiane viajou sozinha de Vitória para Boa Vista. E lá reuniu-se com um grupo que estava pré-organizado para ir até a Venezuela e realizar a viagem-expedição pelo Monte Roraima. No total, foram 13 dias de viagem, sendo 8 dias no topo com longas caminhadas de até 7 horas diariamente. Diante da dificuldade em transportar ou operar aparatos digitais de produção de imagens, seja pelo peso não essencial, ou pelo uso extremamente limitado de baterias, a artista optou por não levar consigo nenhum equipamento tecnológico. Uma decisão que contribuiu para a ideia de transformar o  próprio percurso de deslocamento numa performance contínua de longa duração. 

 

Para os guias locais e população indígena, o Monte Roraima é um entidade viva, nominada ’Madre de las Águas’, e um dos motivos é alta incidência de chuvas em boa parte do ano. Logo na largada a advertência é: nada deve ser retirado do lugar ou deixado para trás. Nenhuma pedra, nenhuma folha, plantas ou vestígio encontrados pelo caminho – simplesmente é um compromisso não levar nada que pertença ao corpo da montanha. Um ato de respeito e zelo, que corresponde a uma espécie de pedido invisível de permissão para subir e descer sem que ocorra nenhuma surpresa desagradável. Diante disso, a premissa de não tomar nenhuma foto ou vídeo, se transformou numa escolha severa e definitiva de como viver esta experiência. Ou seja, foi fundamental não roubar nada da montanha, nem mesmo a sua imagem. Portanto, não houve 'resultado final', senão o próprio processo em tempo presente. No diário de viagem estão alguns registros escritos de impressões, anseios, dúvidas, reflexões, e alguns poucos desenhos. E no corpo, uma infinidade de memórias quase impossíveis de serem narradas.

Vitória x Monte Roraima – Image by Google Maps

Caderno de Viagem / Travel Notebook

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© 2020 Rubiane Maia