CAIS

Installation [Variable Dimensions]. Exhibition Marcus Vinícius. Galeria Espaço Universitário, Vitória, ES, Brazil, 2016.
Work made in memory of Marcus Vinícius [Vitória, BR].

Minha memória guarda muitas imagens, na maioria delas: você e eu inseridos numa paisagem de encontro – um álbum tão grande, mas tão grande que o desafio se faz na escolha por recortar uma única imagem e não outra. Diante disso, eu me pergunto: quais são as qualidades que tornam uma lembrança mais importante que as demais? Seu conteúdo emocional, espiritual, corporal, íntimo, disruptivo? Ou ainda tudo isso misturado, a ponto de mal conseguirmos definir com precisão alguma forma concreta? Sinceramente, não sei.

Cais nasceu assim: daquele nosso encontro marcado através de troca de emails, e que seria a nossa primeira performance juntos – uma ação que nunca chegou acontecer. Desse episódio me sobreveio uma incisão gravada na memória que transformou essa passagem numa espécie de fenda rasgada no tempo. Agora, para essa exposição regresso para recolher algumas das suas palavras e as reescrevo com a minha caligrafia, incluindo entre elas alguns dos meus desenhos-diagramas… Mas como pode ser que haja tanta luz sobre a lembrança de algo que nunca ocorreu? Talvez, pelo fato de que o verbo criar tenha proximidade com essa navalha fina que nos corta ao meio, e que é capaz de fazer da criação esse modo de compor e se recompor ou de simplesmente jogar com o que temos à mão, mesmo quando tudo o que possuímos seja exatamente o não possuir mais nada, o vazio; mesmo que o material seja do campo do invisível ou do ‘quase inexistente’; ou, ainda, da falta de um braço ou de algum outro pedaço de nós.

Hoje, arrisco afirmar que Cais tinha como proposta o desembocar do desejo que tínhamos em comum de nos provocar algum tipo de enraizamento, que por princípio já era extremamente arbitrário, pouco sólido e destinado a ser passageiro, tanto que a paisagem que escolhemos como abrigo foi um dia de sol com céu aberto, um chão de areia e o mar – horizonte. Afinal, não é desde sempre que as paredes da nossa casa facilmente se desmancham com o vento ou com a água? Não é desde sempre que confundimos a vontade de ficar com a de partir? Não é desde sempre que mal sabemos a diferença entre o que está dentro e o que está fora?

Sim, nos une a cumplicidade.
E esse é um elo que nenhuma forma pode comportar.
Marcus, nós estamos juntos: aqui.


Rubiane Maia (1979 - ) . página frente

I.
De certa forma, estou de regresso. Estas imagens me trazem ao lugar que conheci primeiro, ao lugar onde comecei a exercitar o oficio de viver, aprender, criar, amar, esquecer… Ainda que queira, não poderia obedecer aqui a formalidade das apresentações, porque há uma conexão direta com a minha própria biografia.

Durante os últimos anos tenho viajado bastante, conhecido outros céus, mas sempre regresso… E quando me perguntam de onde sou, tardo a responder. E esta é uma situação frequente nas nossas vidas de artistas nômades. Com vivências em São Paulo, Buenos Aires, Rio de Janeiro, Córdoba, Bogotá ou Recife, em momentos formadores do próprio crescimento, é difícil estabelecer com claridade um lugar de pertencimento. Estas anotações respondem ao espírito travelling, visto como metáfora da escritura: o texto como um tecido de memórias ou, como queria Proust, "um tecido do esquecimento”. Uma viagem sem retorno que transcreve um olhar nostálgico sobre tudo que já foi vivido.

II.
Sento-me por horas a admirar e encher o coração de lembranças, sonhos e desejos.


Marcus Vinícius (1985-2012) . página verso

CAIS Detalhe

Desenho [Caneta nanquim sobre papel - 7 Peças - 150L x 150A mm.

TRANSFERÊNCIA. TALVEZ O NASCIMENTO DAS LÁGRIMAS

Vídeo Doc / Performance – International Performance Art Week, Veneza, Itália, 2012.

Fotografia por Monica Sobczak.

ELEGIA

Texto [Impressão P/B sobre papel - 320L x 450A mm]

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© 2020 Rubiane Maia